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A terapia para além de um diagnóstico

Sobre como a angústia, a aceleração diária e o esgotamento mental também merecem atenção.

A terapia também é para as dores que não têm nome bonito nem diagnóstico: sobre como aquela angústia silenciosa, a aceleração diária e esgotamento mental também merecem atenção

Existe um mito comum de que a psicoterapia serve apenas para pessoas passando por momentos de crise, tragédias pessoais ou com diagnósticos graves. Por conta disso, muitas pessoas adiam o cuidado com a saúde mental – seja por normalizarem situações, relações e dinâmicas que não deveriam ser normalizadas, ou por invalidarem a própria dor, achando que seu incômodo não é importante o suficiente.

A verdade é que, com a velocidade da rotina atual, é fácil nos habituarmos ao desconforto. Aprendemos a conviver com a ansiedade constante, com o cansaço mental que não passa, com a sensação incômoda de estar vivendo no piloto automático, e com a sobrecarga pelas várias tarefas a serem cumpridas – seja no trabalho, na família, nas relações…às vezes, até as coisas que deveriam ser prazerosas parecem mais com demandas a serem “riscadas” de uma lista.

Muitas vezes, dizemos a nós mesmos que “a vida é assim”, ou que “todo mundo passa por isso”. Tentamos nos convencer disso e colocar o incômodo de lado a todo custo, já que essa parece a única maneira de se viver na sociedade atual…será?

Fazendo das palavras do sociólogo Hartmut Rosa (2019) as minhas, venho propor um questionamento: “O que é uma boa vida? E o que nos impede de levar essa vida? Por que a vida é sentida como uma luta diária? Por que as pessoas sentem-se como hamsters numa roda girada sempre mais velozmente, na qual o mundo se impõe como uma lista de afazeres sempre mais longa?”

A aceleração constante da modernidade – presente nas inovações tecnológicas, na volatilidade das nossas relações e na sensação crônica de escassez de tempo – transformou nossa forma de viver. Fomos empurrados para uma lógica de desempenho, na qual a cobrança por ser positivo e produtivo nos transformou em “empresários de nós mesmos”, como destacou o filósofo surcoreano Byung-Chul Han (2015).

A todo momento, somos incentivados a dar conta de tudo: das demandas externas e, silenciosamente, dos próprios sentimentos que esse esgotamento gera. Cria-se, assim, uma ilusão de que o cansaço é a norma e de que o incômodo psíquico deve ser contornado com mais eficiência, em vez de acolhido e compreendido.

O psicanalista e médico Christophe Dejours (2018) nos explica que, para conseguir continuar funcionando no dia a dia, o sujeito normaliza a dor, o cansaço e o medo, e passa a tratar situações disfuncionais como algo banal, caracterizando uma estratégia defensiva que o ajuda a sobreviver na rotina a curto prazo. Mas amortecer a percepção do sofrimento para evitar o colapso têm um custo alto: a alienação do seu próprio corpo e das suas próprias emoções. A pessoa para de sentir os limites de onde a dor começa, o que abre espaço para somatizações, ansiedade e esgotamento.

A verdade é que a dor emocional não precisa ser avassaladora para merecer atenção. Minimizar o que se sente nos afasta de nós mesmos e nos prende a dinâmicas que desgastam nossa energia, nossos relacionamentos e nossa qualidade de vida.

Na prática, são justamente essas transformações da vida contemporânea que ampliaram a prática do psicólogo. Segundo Luís Cláudio Figueiredo (2012), em vez de pacientes com sintomas claramente estruturados (como as neuroses tradicionais do tempo de Freud), a clínica atual recebe cada vez mais pessoas com “queixas vagas”: esgotamento, incapacidade de relaxar, dificuldade de estabelecer vínculos profundos ou conflitos recorrentes nas relações, sensação de vazio ou uma constante perda de sentido na rotina.

Para cuidar dessa dor que muitas vezes nem sabemos nomear, a psicanálise aposta no consultório como um espaço de acolhimento e sustentação. Trata-se de um processo construído a dois, onde não há cobrança por alta performance nem ritmos impostos. Ali, no seu próprio tempo, o “não sei” é acolhido para que o caos aparente ganhe sentido, abrindo espaço para novas perspectivas, maior autonomia e formas mais saudáveis de se posicionar no mundo.

Talvez não esteja ao nosso alcance mudar toda a estrutura do mundo ao nosso redor, mas temos o poder de transformar a maneira como habitamos a nossa própria vida. Ao assumirmos o protagonismo das nossas escolhas, alteramos a dinâmica do ambiente ao nosso redor e abrimos espaço para transformações no contexto que antes gerava dor. Afinal, nenhum ambiente se mantém o mesmo quando decidimos mudar a forma como nos posicionamos diante dele.

Referências:

Rosa, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. São Paulo: UNESP, 2019.

Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

Dejours, Christophe. A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 2018.

Figueiredo, Luís Cláudio. As diversas faces do cuidar: novos ensaios de psicanálise contemporânea. São Paulo: Escuta, 2012.